Humanidades = Caixa do Pingo Doce?



Saudações Unicórnios! Já era mais que sabido que algo de errado acontece com a educação em Portugal, e nem é com o sistema em si, mas sim com a sociedade. Eu já tinha conhecimento de que ainda existem umas pessoas que acham que o desemprego apenas afeta os de Humanidades, mas agora ouvi boatos de que andam a dizer que os alunos que frequentam essa área "vão parar às caixas do Pingo Doce". Que engraçado, para além de serem "mais inteligentes" também conseguem "prever o futuro"? Uau, com tanto talento ainda nem sei porque não foram contratados para trabalhar lá na NASA ou no FBI, têm futuro vocês!


O argumento que estas pessoas defendem é que "com Ciências, o aluno pode ingressar e trabalhar em qualquer área do ensino superior", mas será que terão preparação adequada para as profissões que daí advêm?

Por exemplo, muitos acham que a má situação económica do país se deve ao facto de que antigos alunos de Humanidades ocupam atuais cargos políticos, o que não está totalmente errado, mas também não está certo. (Até porque muitos políticos têm, na verdade, licenciaturas em cursos da área de Economia ou Ciências, a maioria tem, até, de várias áreas em simultâneo, portanto, argumento inválido).

A minha cara quando perguntam se fui para Humanidades
para fugir à matemática. (www)
Porque é que o curso superior de Ciências Políticas tem como disciplinas de ingresso, as específicas de Humanidades? Como História e Geografia na maioria dos casos?

Quem nunca esteve nesta área pode não compreender porque nunca estudou estas disciplinas e pensam que Filosofia basta para entrar em algo relacionado com o curso. (O que é falso, acho que nem metade dos cursos pedem Filosofia como disciplina de ingresso).

Os programas de estudos de História e Geografia, por exemplo, são essenciais para nos fornecer cultura geral, e não, a partir do 10º ano, Geografia não é saber onde os países estão, eu indentificá-la-ia mais como uma espécie de "política e meteorologia simplificada com geoestratégia aplicada a diversas situações no caso de Portugal", e também tem um pouco haver com economia em algumas partes (não é por nada que os de Economia também têm essa disciplina).

Não estou a dizer que os de Ciências não têm cultura geral, porque isso pode depender deles e do seu interesse pela mesma, mas entendam, que a preparação que eles têm para lidar com problemas sociais ou diplomáticos, não é a mesma que um aluno de Humanidades tem (pelo menos antes do ensino superior, mas sem bases, na universidade o processo de adaptação provavelmente será mais complicado).

Em Humanidades também aprendemos um pouco de tudo, então não nos tratem como se fossemos ignorantes, se calhar sabemos mais do que pensam, vejamos:
  • Geografia: Tem alguma economia, política e geologia. Por exemplo: aprendemos quais são os planos e projetos que são ou foram aplicados no país ou na UE, independentemente da sua vertente (económica, política, ecológica, etc.), no inicio temos também um pouco de estatística.
  • História: Aprofundamos conhecimentos relativos à sociedade antiga, aos planos implementados por ditadores a níveis sociais e económicos (por exemplo), e alguns pormenores relativos a história de arte (o que também nos liga, de certa forma, com os alunos de artes). Aprendemos sobre crises económicas e demográficas quase até aos mais pequenos detalhes. "E para que serve?" perguntam vocês. É simples, para evitar cometer erros que já foram cometidos. História é importante para a evolução da sociedade ao contrário do que muitos pensam. Já passou, mas isso não significa que não se venha a "passar" de novo se não prestarmos atenção!
  • Línguas: "Para quê se já temos o Google Tradutor?", "Os dos outros cursos também têm Inglês, o Inglês basta", bom, divirtam-se a ver filmes franceses sem legendas, ou com a ajuda do vosso amigo, Google Tradutor. Invenções para traduzir textos automaticamente, precisam, em primeiro lugar, da colaboração de humanos que realmente saibam as línguas em si e atualmente ainda não existe nenhum mecanismo totalmente autónomo e eficaz. Então, se tivermos de trabalhar no estrangeiro, provavelmente iremos perder menos tempo, porque já temos algumas bases para comunicar. Nem toda a gente é boa em Inglês, e nem toda a gente fala Inglês com fluência suficiente, e num país estrangeiro, ninguém o usa no seu dia a dia, se estiverem a pensar em emigrar, provavelmente vão ter muito mais dores de cabeça, e também terão aulas de alguém do curso de Humanidades (mas claro, Humanidades não é útil, de certeza que se aprenderem por vocês mesmos conseguem ficar logo fluentes). Línguas diversificadas, são importantes! Para negócios, política e outros!
  • MACS: Há também alguns alunos que optam por ter a Matemática Aplicada às Ciências Sociais, que apesar de ser uma matemática simplificada, faz com que o curso se cruze, por fim, com Ciências também.
Não há nenhum curso que seja mais difícil que o outro, apenas pessoas diferentes com vocações diferentes, há pessoas que se dão melhor com Ciências e acham que é mais fácil por ser algo exato, há pessoas que se dão melhor com Humanidades porque têm facilidade em aprender línguas ou memorizar factos históricos (como eu), e por aí fora.

"A minha disciplina preferida é História" "Vais para
Humanidades então?" "Não, claro que não, isso é para
burros, eu vou para Ciências! Quero ser Psicóloga!"
(www)
Vamos ser sinceros, hoje em dia, ninguém se safa, até os de Ciências não conseguem fugir aos recibos verdes, deixem de ser cegos porque todos sabemos que a empregabilidade dos cursos nem interessa assim tanto se é para ganharmos todos mal.

Fazer algo de que se gosta é importante, e portanto, um aluno que vai para Humanidades pode não estar necessariamente a fugir à Matemática, mas pode sim, estar a tomar a decisão certa para a sua vida, a optar pelo que lhe dá mais motivação.

E para quem diz que isso de "fazer o que se gosta" é treta? Falamos daqui a 10 anos quando estiverem a exercer algo que não vos dá qualquer prazer, quando a vossa vida estiver vazia, e os vossos bolsos alimentados a recibos verdes. Ou talvez, quem sabe, já tenham tirado outra licenciatura em algo diferente que realmente vos agrade porque perceberam que ia dar ao mesmo.

Acredito que é possível fazer o que se gosta independentemente das circunstâncias, só é preciso ter motivação, vocação e dedicação, emprego é algo que, se não achas aqui, achas ali. A empregabilidade não me diz quase nada. Alguns podem achar que sou louca, outros podem achar-me corajosa, mas a verdade, é que apenas não sou iludida, porque o presente não é o futuro.

O que tem saída hoje, pode não ter saída amanhã ;3

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